terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Crise europeia está aproximando as pessoas de Deus

Igrejas evangélicas estão recebendo um número maior de fiéis.

De acordo com um estudo realizado pela Universidade Católica Portuguesa (UCP), o número de evangélicos em Portugal cresceu, nos últimos dez anos, de 0,3 para 2,8%.

Embora igrejas como a Assembleia de Deus já não estejam tão cheias como acontecia nas décadas de 1980 e 1990, aparentemente a crise econômica pela qual passa a Europa esteja aproximando as pessoas da religião.

Teólogos, pastores e pesquisadores do assunto concordam que momentos como o atual podem motivar as pessoas a ser mais religiosas. Mas ressaltam que este é um fenômeno complexo, que não pode ser explicado apenas pela corrente crise europeia.

O pastor Vieito Antunes, da Assembleia de Deus de Lisboa, ressalta que “Em situações de crise, em todas as áreas da vida, é normal as pessoas buscarem mais Deus, é um fato. Há uma tendência para, quando as pessoas têm tudo garantido, esquecerem-se do religioso, como se tudo dependesse de nós e fôssemos autossuficientes. Mas não é um fenômeno em larga escala. A secularização das sociedades continua a ser muito importante em toda a Europa”.

O casal Strango, Mircea (romeno) e Susana (portuguesa), explica porque a religião tem um papel importante em suas vidas: “Já passamos por fases difíceis, mas sempre nos safamos e não precisamos recorrer à ajuda material da nossa igreja. Mas a religião foi muito importante para mim nos momentos mais difíceis da minha vida, sobretudo do ponto de vista espiritual, na força que me deu para continuar a lutar, para procurar trabalho e ter dinheiro para alimentar os meus filhos”, resume Mircea. “A igreja será sempre importante para quem precise de um ponto de apoio, quando tudo o resto falha”, acrescenta.

Alfredo Teixeira, antropólogo do Centro de Estudos de Religiões e Culturas (CERC) da UCP, liderou um estudo sobre as identidades religiosas em Portugal, realizado pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião e pelo CERC. Os dados foram recolhidos entre outubro e novembro do ano passado.

Numa comparação dos dados desta pesquisa com uma semelhante, realizada há dez anos, chama atenção a diminuição do número dos que se dizem católicos (86,9 para 79,5%) e o crescimento dos que dizem ser de outra religião (de 2,7 para 5,7%).

Teixeira admite que o crescimento dessas igrejas evangélicas, em especial as pentecostais, pode estar associado à “teologia da prosperidade”. Esse tipo de ensino é mais comum na IURD e na Igreja Maná, onde “ser salvo e ser próspero equivalem-se”. “A salvação é ‘já’ e não algo que se espera para além de uma existência terrena. Neste contexto, as propostas de cristianização dirigem-se, de forma muito direta, aos riscos do quotidiano, e à possibilidade de os ultrapassar. Essa orientação pode, entre outras razões, ajudar a perceber esta última onda de crescimento dessas igrejas”, explica o antropólogo.

O pastor Antunes, que rejeita a teologia da prosperidade, ressalta: “A Bíblia não tem em lado nenhum a promessa de enriquecer pessoas. O que o Senhor promete é suprir as necessidades do seu povo”.

A socióloga da religião, Helena Vilaça, não nega que haja uma ligação entre a crise e a busca da religião. Contudo, para ela esta relação “não é universal nem as coisas são assim tão simples”. Ressalta que a tese de que as pessoas, em situação de carência, procuram respostas na religião só explica parcialmente a realidade: “Isso seria reduzir a religião a alienação, no sentido marxista do termo. E a realidade revela que a religião também conduz a comportamentos emancipatórios. Há países com crescimento econômico e com vitalidade religiosa, como o caso dos EUA, por exemplo. Também o Brasil ou a Coreia do Sul, quando entraram em fase de crescimento, não perderam a vitalidade religiosa”, lembra.

Por sua vez, José Pereira Coutinho, autor de uma tese de doutorado sobre o assunto, considera que em tempos de crise, seja “natural” que as pessoas com menos rendimentos reforcem a sua religiosidade, sobretudo nas igrejas que defendam a teologia da prosperidade: “A [Igreja] Católica dá a salvação para o além, não dá resultados agora”, ressalta.

José Luís Costa, padre em Linda-a-Velha e capelão prisional no hospital de S. João de Deus e no Estabelecimento Prisional de Caxias, reconheça que no contexto atual de crise, “há uma procura maior de aspectos religiosos”, essa busca é feita “de uma forma mais desorganizada e menos institucionalizada”: “Procuram o elemento, mas não a prática, não o ir à missa todas as semanas”, explica.

O pastor presbiteriano Dimas de Almeida, pesquisador do Centro de Estudos de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona, afirma que não tem notado nem aproximação nem afastamento: “Penso que, quando uma crise leva as pessoas a aproximarem-se da religião, pode ser um sinal de fraqueza do religioso… Diante de uma crise profunda, perguntamos ‘o que é que isto significa? Qual o meu papel? Para onde vou?’ Somos peregrinos do sentido. Nós todos somos vagabundos do sentido. Há religião porque há problemas do sentido. Quando a crise nos ameaça é o sentido da vida que fica também ameaçado”.

Fonte: http://noticias.gospelprime.com.br/crise-europeia-esta-aproximando-as-pessoas-de-deus/

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