sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Julgamento de ex-mordomo do papa expõe "Vatileaks"

Apesar do perdão do Papa, mordomo será julgado.

Há seis anos, todos os dias, antes do amanhecer e depois do anoitecer, Paolo Gabriele, de 46 anos, casado e pai de três filhos, percorria a pé a distância entre a sua residência e o apartamento de Bento XVI. Na ida e na volta, o mordomo do papa passava junto a um caixa automático muito peculiar. O fundo do ecrã reproduz "A Criação de Adão", o afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina, e entre as línguas que o convidam a introduzir o cartão e retirar euros está o latim: "Inserito scidulam quaeso ut faciundam cognoscas rationem" (que pode ser traduzido como: "Coloque o seu cartão para realizar as suas operações").

Há exatamente quatro meses Paolo Gabriele deixou de passar junto do caixa do Banco do Vaticano. Em 23 de Maio, a polícia deteve-o sob a acusação de roubar e divulgar para a imprensa a correspondência particular de Joseph Ratzinger. Gabriele, também conhecido como Paoletto, afirmou que a sua única intenção foi ajudar a Igreja e o papa, revelando as intrigas palacianas. O julgamento, que começa no próximo sábado, na Cidade do Vaticano, deverá esclarecer se, como no caixa, a religião, a arte e o latim só serviam de envoltório para um motivo muito mais terreno.

A primeira parte da história é bem conhecida. Há um ano, um grande número de documentos confeccionados para serem lidos exclusivamente por Bento XVI começou a ser divulgado na mídia. O primeiro foi uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò advertindo o papa sobre diversos casos de corrupção dentro do Vaticano. Depois conheceu-se outro relato, elaborado pelo cardeal colombiano Darío Castrillón, no qual se falava de uma estranha conjuração para matar Ratzinger - "o papa morrerá em 12 meses" - e das más relações entre o sucessor de Pedro e seu secretário de Estado, monsenhor Tarcisio Bertone.

Um espião, não se sabe com que interesse nem a que preço, continuou a fornecer documentos cujo denominador comum era a luta de poder acirrada no seio da Cúria. Depois de uma temporada encerrado em silêncio, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, acabou por admitir que a Igreja estava a sofrer o seu "Vatileaks" particular e o jornal L´Osservatore Romano publicou um editorial em que retratava a situação de um papa idoso, doente e só: "um pastor rodeado de lobos".

A secretaria de Estado do Vaticano reagiu finalmente encarregando o cardeal espanhol Julián Herranz de procurar o suposto culpado, e, no final de Maio, surgiu a surpresa: o traidor, o espião, o corvo, era o fiel Paoletto - o mordomo do papa. O que o despertava às 6:30, ajudava-o a vestir-se, a preparar a missa, lhe servia o café da manhã e o almoço, o que - por volta das 21:00 - lhe preparava um chá e o ajudava a despir-se e a ir para a cama...

A segunda parte da história já não é tão conhecida. Paolo Gabriele passou os dois primeiros meses de cativeiro num calabouço e de 21 de Julho para cá esperou o julgamento em prisão domiciliar. Também que, junto com uma multidão de documentos, os agentes da polícia encontraram na sua residência no Vaticano uma pepita de ouro, uma edição ilustrada da "Eneida" de Annibal Caro, de 1581, e um cheque por cobrar de 100 mil euros que José Luiz Mendoza, presidente da Universidade Católica San Antonio de Murcia (UCAM), havia enviado ao papa. Soube-se também que Joseph Ratzinger está com pena e que Paolo Gabriele lhe pediu perdão. Inclusive que, junto dele no banco dos réus sentar-se-á Claudio Sciarpelletti, um técnico em informática que, ao que parece, o encobriu.


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