sábado, 8 de setembro de 2012

Igreja precisa de seguidores radicais

Dom Antônio Couto, bispo português.

O presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização e bispo de Lamego, António Couto, foi um dos oradores no Curso de Missiologia, que terminou sábado, 1 de setembro, no Seminário da Consolata. Falou de São Paulo como modelo de missionário e, no final, pediu mais seguidores radicais de Jesus Cristo.

FÁTIMA MISSIONÁRIA- Que imagem de São Paulo transmitiu aos participantes do curso?
António Couto- Tentei mostrar a figura de Paulo como um seguidor radical de Jesus Cristo. Falei essencialmente da metodologia missionária que desenvolveu, muito personalizada, a tempo inteiro, com total dedicação. Paulo nunca fez nada, nem enquanto judeu, nem depois como cristão quando se fez seguidor de Cristo, a menos de cem por cento. Como apóstolo missionário evangelizador cristão, quando levava Cristo a alguém, empenhava-se nisso a cem por cento. Aliás, ele fala talvez muito mais com a sua vida do que com as palavras, porque quem segue Cristo a cem por cento nem precisa de dizer palavras.

FM- Fazem falta à Igreja Católica pessoas mais empenhadas, como foi São Paulo?
AC- A Igreja precisa de seguidores radicais de Jesus Cristo. Foi o que Paulo foi. Alguém que siga Jesus Cristo de perto e não queira inventar e dizer coisas fora daquilo que é Cristo e o seu Evangelho. Paulo inovou completamente sem precisar de inovar, porque apenas imitou Jesus Cristo. Foi até hoje o maior missionário de todos os tempos.

FM- O caminho da nova evangelização passa por ai?
AC- Claro. Não tanto por querermos inovar, à procura de expressões novas, de dar resposta a esta geração de hoje, que é diferente, mas pela nossa fidelidade a Jesus Cristo. Ou seja, em vez de novidade, fidelidade. Se nós vivermos como Cristo, ao estilo de Cristo, seguramente que o mundo mudará, porque a nossa vida muda. Mudando a nossa vida, mudamos a vida dos outros. Se a nossa vida não mudar, escusamos de pensar em mudar a vida dos outros.

FM- Este ano do Curso de Missiologia registou um aumento de participação de leigos. É um bom indicador? AC- É sempre bom que os leigos percebam que não são de segunda, em relação ao resto da Igreja. Os leigos são extremamente importantes e onde não houver leigos, a Igreja não está suficientemente implantada. Porque o leigo é aquele que leva o Evangelho ao coração do mundo. Quem é que entra nas fábricas, quem é que entra nas escolas, nas casas, nos cafés? São os leigos. Os leigos estão no coração do mundo e o Evangelho tem que chegar ao coração do mundo. Nós temos que nos rodear de muitos e bons cooperadores, como fez São Paulo. Ele podia pouco sozinho, mas se for uma rede de muita gente, será muito mais fácil levar mais longe o Evangelho.

FM- Que papel podem ter os sacerdotes para chamar mais leigos à missão da Igreja?
AC- O papel do sacerdote será sempre importantíssimo. Onde houver um sacerdote motivado e convicto, é muito mais fácil motivar as pessoas. Onde houver um sacerdote desmotivado ou apagado, as coisas correrão com muito mais dificuldade.

FM- As constantes mudanças sociais e económicas levantam novos desafios à evangelização. Como vê o futuro das missões em Portugal, na Europa e no resto do mundo?AC- É necessário perceber, de uma vez por todas, que a missionação já não se faz em territórios. Isto é, não se faz só na África, na América Latina, ou na Ásia, que eram os antigos territórios de missão. Hoje, sabe-se que não se evangelizam territórios, evangelizam-se pessoas. E as pessoas precisam do Evangelho em todo o lado. Nós temos que ir ao encontro das pessoas e levar-lhes as sementes do Evangelho. A evangelização hoje faz-se onde houver pessoas.

FM- A falta de vocações pode afetar mais os institutos missionários ou as dioceses?AC- Penso que é indiferente. Onde houver gente empenhada e convicta em servir Jesus Cristo, haverá sempre seguidores. Quando nós adormecermos à sombra da bananeira, aí não temos seguidores. O inquérito recente sobre a identidade religiosa desenvolvido pela Universidade Católica mostra bem que o padre se for menos funcionário e mais missionário, terá muito mais seguidores. As pessoas querem o padre não tanto como um fornecedor de bens e serviços, mas com espiritualidade, com vida interior, ungido por Deus e que passe Deus.


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