domingo, 26 de agosto de 2012

Padre Omar: “A parada é o seguinte: oração e organização”

Com linguagem atual, padre alcança a juventude da Igreja.


“Meu irmão”, “a parada é essa”. São expressões que fazem parte do vocabulário do carioca Omar Raposo, 32 anos, pároco do Santuário do Cristo Redentor. Responsável pela logística da Jornada Mundial da Juventude, que terá a participação de Bento XVI, de 23 a 28 de julho de 2013, no Rio de Janeiro, padre Omar diz acreditar que a música, além de sua linguagem jovem e informal, é uma das maneiras de aproximar o discurso da Igreja Católica dos jovens.

Para isso, fez um CD no qual o samba e o pop predominam. Peço a Deus (EMI, R$ 24.90), nome do álbum e da primeira faixa, gravada em dueto com o sambista Diogo Nogueira, é um dos exemplos. A faixa foi lançada originalmente em 1985, em um disco de Mestre Marçal, que fez dueto com Caetano Veloso. A versão de Padre Omar preserva o balanço do samba, mas dá ênfase à vocação de oração da canção.

Outra música que virou prece, “A montanha”, de Roberto e Erasmo Carlos, também foi gravada por Omar, dessa vez em dueto com padre Jorjão, sacerdote igualmente badalado do Rio de Janeiro. “O Roberto (Carlos) liberou a canção na hora”, diz padre Omar, em referência à já conhecida implicância do compositor em liberar regravações de suas obras.

Além de padre Jorjão, outros dois religiosos cantam com Omar no CD. Os padres Juarez Castro e Gleuson Gomes participam de “Amigos para sempre”, batido tema da Olimpíada de Barcelona, em 1992. “Essa faixa prova que não existe rivalidade entre os padres cantores”, diz Omar.

Padre Omar também tratou de registrar algumas músicas que fazem sucesso em missas de sua cidade, como “Mostra a tua face”, “Obrigado, Senhor” e “A força da Eucaristia”, bem como as clássicas “Oração de São Francisco de Assis” e “A Bênção João de Deus”, essa última composta para passagem do Papa João Paulo II (1920 –2005) pelo Brasil em 1980 e que agora surge como homenagem à iminente canonização de um dos pontífices mais carismáticos da história.

Além da música, das missas no Cristo Redentor e dos cuidados com a Jornada da Juventude, padre Omar tem um programa de TV, um perfil no Facebook e dá consultoria para a TV Globo, o que lhe garante um bom trânsito entre os artistas. Em entrevista a ÉPOCA, padre Omar falou sobre sua relação com a música, da necessidade da Igreja Católica renovar sua linguagem e sobre vaidade.

ÉPOCA O senhor sempre teve uma relação bastante forte com a música, não?
Padre Omar – Sempre. Ainda na adolescência, eu entrei na UniRio, fui fazer bacharelado em música. Só que tive de parar o curso porque entrei para o seminário. Mas lá eu também sempre estive perto da música, participando do coral, cantando em celebrações. No final da faculdade de Teologia, eu retornei ao curso de música e depois fui aluno do Conservatório Brasileiro, no Rio de Janeiro. Na sequência, eu tive a oportunidade de morar fora do país e estudei música sacra na Universidade Santa Cecília de Roma, na Itália.

ÉPOCA – E quando o senhor decidiu lançar um CD?
Padre Omar - Na ocasião dos 80 anos do Cristo Redentor (outubro de 2011) e também pela aproximação da Jornada Mundial da Juventude (em 2013). Tivemos a ideia de focar em uma linguagem que tocasse o coração dos jovens. O CD, com músicas em ritmo de samba e pop, é um meio de chegar mais perto da juventude.

ÉPOCA - Há aquele velho ditado popular que diz que “cantar é rezar duas vezes”. É isso mesmo?
Padre Omar – Sem dúvida. Essa velha máxima está certíssima!

ÉPOCA - A venda dos CDs tem alguma ação beneficente?
Padre Omar – Tem, sim. O objetivo é destinar parte das vendas para o projeto "Ação de Amor do Cristo Redentor”, que talvez seja o maior projeto social do Rio e, em breve, será o maior do Brasil. Vamos destinar as vendas para essa obra social, que é uma ação do bem. Porém, todo mundo sabe que, atualmente, vendas de CD não é isso tudo, né?

ÉPOCA - Como foi a ideia de trazer o samba e o Diogo Nogueira para participar do CD?
Padre Omar – Essa música (Peço a Deus) foi gravada anteriormente por Caetano Veloso. Isso é um selo de qualidade. A música é bonita, traz uma mensagem de paz, de amor. E o Diogo é jovem, é querido pelas pessoas.

ÉPOCA - O senhor acha que ações como essas ajudam a aproximar a juventude da Igreja Católica?
Padre Omar – Ajudam muito. É uma estratégia de evangelização. O discurso da Igreja não está envelhecido, mas a linguagem precisa se renovar sempre, se adequar. A evangelização precisa seguir as novas tendências, precisa de novas motivações. É preciso planejamento para criar novos projetos nesse sentido.

ÉPOCA - O senhor também usa as redes sociais para se comunicar. Faz parte dessa estratégia?
Padre Omar – É uma inovação que não pode ser ignorada. A Igreja está sempre aberta para a comunicação. Eu gosto muito das redes sociais. Quando se tem boa intenção, elas podem ser ferramentas para o bem, podem ser exploradas ao máximo. Em um mês, o meu perfil no Facebook ganhou 40 mil “curtir”. É um número interessante que eu espero que cresça mais. Você pode ter certeza de que a Igreja vai utilizar cada vez mais essas ferramentas para atualizar seu discurso.

ÉPOCA - O Roberto Carlos tem certo cuidado para liberar suas músicas. Como foi com vocês?
Padre Omar – Foi muito tranquilo. O padre Jorjão, que participa da gravação comigo, é muito próximo do Roberto, é mentor espiritual dele. Ele levou o pedido e o Roberto autorizou na hora.

ÉPOCA – O senhor convidou, além do padre Jorjão, outro dois padres, Juarez de Castro e Gleuson Gomes, para participar do CD (eles cantam, junto com Omar, “Amigos para sempre”). Não há rivalidade entre “padres cantores”?Padre Omar – Não há. É mentira, intriga. Todo padre que canta pode se juntar a outros para fazer um trabalho em conjunto. Isso só soma. A amizade sacerdotal é um dom da Igreja.

ÉPOCA - O senhor precisa de alguma autorização especial da Igreja para gravar o CD ou se apresentar em shows?Padre Omar – Eu tive todo o apoio e incentivo do bispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta. Ele já foi o responsável pela comunicação da Igreja Católica no Brasil. Ele é um homem de muita visão. Eu tenho toda a chancela da Igreja para fazer esse tipo de trabalho. Isso me dá muita segurança.

ÉPOCA - O senhor rezou sua primeira missa como padre no Complexo do Alemão. Como foi essa experiência? Continua realizando algum tipo de trabalho por lá?Padre Omar – É, rezei missa no Alemão antes da pacificação. No momento que aconteceu a intervenção do Estado, eu estava lá no Cristo e rezei, ao lado de visitantes brasileiros e estrangeiros, pelo sucesso da operação. Depois da pacificação, eu ajudei na organização de uma missa que teve lá no Alemão, rezada pelo Dom Orani. Posso dizer que conheço bem as duas realidades daquela comunidade: o abandono e, agora, os projetos sociais. Nosso interesse é apoiar as boas iniciativas que existem por lá.

ÉPOCA - O senhor é pároco do Cristo Redentor, está apresentando um programa da Rede Vida, trabalha na divulgação do CD, vai gravar clipes da música, organiza a Jornada Mundial da Juventude. Como está a sua rotina? Como arruma tempo para tudo?Padre Omar – A parada é o seguinte: oração e organização. Não tem segredo.

ÉPOCA – O senhor faz consultoria para a TV Globo. Como é esse trabalho?Padre Omar – Existe uma parceria entre a TV Globo e a Igreja do Rio de Janeiro. Quando, por exemplo, tem um personagem que é padre em alguma novela, eles me chamam para ajudar na composição, dar dicas de figurinos, de gestos. Com isso, criei uma proximidade com muitos artistas. O Murilo Rosa, para fazer o padre Miguel da novela Desejo Proibido, ficou andando meses comigo, fazendo laboratório.

ÉPOCA - A mídia costuma mexer com a vaidade das pessoas. Como o senhor encara isso?Padre Omar – Eu não trago deslumbre no meu coração. Para mim é natural, normal. Eu posso estar numa comunidade carente ou em um lugar mais rico, que é tudo igual. Lembro sempre algo que minha mãe me disse quando eu fui ordenado padre: “Vai ser padre? Então seja bom da enxada à embaixada”. Trato todos iguais, sou muito tranquilo em relação a isso.


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