sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A direita religiosa, o casamento gay e o frango que foi cortado ao meio

Fast-food cristão em defesa da família forma filas e protestos.

Um sanduíche de frango empanado pode tornar-se uma declaração política contra ou a favor do casamento gay? Nos Estados Unidos, pode. A movimentação em torno da cadeia Chick-Fil-A, cujo proprietário afirmou que a sua empresa apoia "a definição bíblica da unidade familiar", mostrou que sim.

Os EUA estão a convidar o julgamento de Deus, ao virarem os punhos para Ele dizendo "sabemos melhor que Tu o que é um casamento", disse Dan Cathy, o proprietário desta cadeia de fast-food bem conhecida pelo seu cariz cristão (os fãs seculares do frango frito ligeiramente picante chamam-lhe "Jesus chicken", diz o New York Times) numa entrevista à agência Baptist Press em meados de Julho. Desde então, o nome de Cathy e o da sua empresa têm estado envolvidos em polêmica.

Daí o apelo de Mike Huckabee, ex-candidato republicano às presidenciais e comentador da muito conservadora televisão Fox News: declarou quarta-feira o Dia de Apreciação da Chick-Fil-A. Todos os que se identificassem com as ideias expressas por Dan Cathy eram convidados a entrar numa loja e comprar os seus sanduíches de filé de frango.

"O objetivo é simples", escreveu Huckabee no Facebook: "Apoiemos um negócio que funciona com princípios cristãos, cujos executivos estão dispostos a afirmar uma posição pelos valores de Deus que nós partilhamos". Em jogo não estava o frango mas a liberdade de expressão da direita religiosa, afirmou: "A esquerda usa frequentemente o apoio de marcas comerciais para provar que existe um suporte para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou para blasfêmias, mas se os cristãos afirmam valores tradicionais, somos considerados homofóbicos, incitadores ao ódio e intolerantes".

A iniciativa foi um sucesso para Huckabee e para a direita religiosa: os restaurantes da Chick-Fil-A, uma cadeia com cerca de 1600 lojas que não abre ao domingo (o tradicional dia do descanso cristão), encheram-se de pessoas contra o casamento gay, ou que querem que a religião tenha a primazia na vida política.

Mais de 670 mil pessoas disseram no Facebook que iriam participar, e várias figuras políticas mediáticas conservadoras juntaram-se também, incluindo o ex-candidato às presidenciais Rick Santorum, o reverendo Billy Graham e Sarah Palin, que colocou online uma foto dela e do seu marido Todd, com os sacos de papel da cadeia do filé de frango.

"Acabo de comprar um sanduíche de frango e no meu carro sente-se o cheiro da liberdade", dizia Steve, na Florida, ao sair de um restaurante Chick-Fil-A, interrogado para o programa de Huckabee na Fox. "Toda a gente vem cá, pela liberdade e por Cristo. É maravilhoso", dizia Vicky, outra cliente, citada pelo blogue Big Browser do jornal Le Monde. Com o "cheiro a liberdade" de frango frito seguiam, em média, 440 calorias, 1400mg de sódio, 60mg de colesterol e 16gr de gordura, segundo as contas do Guardian.

Mas enquanto os apoiantes de Dan Cathy festejavam a liberdade e Cristo com fast food, à porta dos restaurantes estavam ativistas pelo casamento gay, com bandeiras e cartazes. Uma auto-intitulada "chef da Internet" concebeu até uma receita alternativa à da Chick-Fil-A - para quem tivesse vontade de ferrar o dente no frango sem apoiar as ideias do proprietário.

Prefeitos excomungam cadeia

Para hoje, as associações homossexuais apelaram a um Dia do Beijo frente aos restaurantes Chick-Fil-A - a resposta à iniciativa de Huckabee, desta vez sem calorias.

Vários prefeitos criticaram a posição assumida pelo proprietário da cadeia de fast-food, e alguns consideraram que as lojas deixariam de ser bem-vindas nas suas cidades.

O presidente da Câmara de Boston, Thomas Menino, escreveu uma carta furiosa à empresa aconselhando-a a reconsiderar os planos para abrir um restaurante na cidade, relata o Guardian. Edwin Lee, o prefeito de São Francisco, a cidade mais gay-friendly na América, usou o Twitter para excomungar a cadeia: "O Chick-Fil-A mais próximo de São Francisco fica a 40 milhas de distância e aconselho vivamente que não tentem aproximar-se mais." O presidente da Câmara de Washington D.C., Vincent Gray, inventou a etiqueta "galinha do ódio" (hate chicken).


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