sábado, 21 de julho de 2012

O filho de Deus

A Bíblia e a Tradição nos ligam a Jesus Cristo

Descobrimos uma diferença essencial e uma complementaridade indispensável entre a Bíblia e a tradição. Ambas nos levam ao encontro com Jesus Cristo, não num passado distante de dois milênios, mas no presente: aqui e agora. A primeira garante os conteúdos fundamentais, e a segunda proporciona a seiva da vida. A Bíblia é o texto da lição e a tradição, o pedagogo. Ignorar ou distanciar uma da outra é perder o contato com Jesus Cristo.

O Concílio Vaticano II alargou a visão cristã para o mundo. Falou das sementes da revelação divina, espalhadas pelo universo. No século XXI, Collins, ao desvendar o código genético, fala da arte de decifrar a linguagem de Deus, o mesmo que Kepler, ao contemplar o universo, quatro séculos antes, exprimia ao dizer que ali lia os pensamentos de Deus.

A humanidade, em todos os povos e culturas, encontrou sinais de Deus. Solicitamente os recolheu e os transformou em objetos de culto. S. Paulo dirá aos atenienses que os homens procuram Deus, em toda parte, como que às apalpadelas.

Voltamos, por isso, novamente ao sinédrio de Jerusalém. Tem diante de si uma pessoa, cujo prestígio abalara a opinião pública, não pela força das armas ou do poder, mas pela pregação e pela presença solícita em prol dos mais carentes. Na consciência de ser o órgão supremo para o julgamento das questões religiosas, com o aval de uma aliança com o próprio Deus, deve julgar Jesus de Nazaré. Fá-lo de modo solene.

O sumo sacerdote se levanta em meio à assembleia do sinédrio, conjura, em nome de Deus, para obter uma resposta oficial e definitiva de quem é este homem. Não lhe interessa, em primeira mão, o que os homens dizem dele: havia muitas opiniões contrastantes. Não se chegaria nunca a um consenso. Opiniões são opiniões. Não atingem a certeza da verdade. A palavra definitiva será, pois, dele: de Jesus de Nazaré.

Jesus, também em tom solene, como a circunstância exigia, confirma, nas duas etapas do interrogatório: primeiro sua missão e, depois, sua natureza. Ele é o Cristo, o que preenche as promessas veterotestamentárias de um Salvador, prometido por Deus, à semelhança de Moisés. É, pois, o esperado das nações. Mas logo acrescenta o inaudito: é o próprio Filho de Deus. Em outras palavras, Deus veio, em pessoa, visitar a humanidade. Mas não como estranho e transcendente. Tornou-se homem, o que se exprime teologicamente por “encarnou-se”. S. Tomé, ao vê-lo ressuscitado, prostrou-se diante dele para proclamar: “Meu Senhor e meu Deus”. Reconhece, no ressuscitado, não só o sinal de Deus, mas a própria presença pessoal de Deus. S. João, no prólogo de seu Evangelho, exclama: “a palavra se fez carne e habitou entre nós”.

Dentro da grande tradição religiosa da humanidade, isto não deveria, a rigor, causar surpresa. Deus como que preparara, não só pela orientação do Antigo Testamento, como também pelas religiões humanas em geral, este grande momento. Um dia ele não apenas se manifestaria por sinais e não só se deixaria descobrir pelas realidades criadas, mas, em pessoa, se tornaria presente e visível entre nós. Satisfaria assim o desejo de toda humanidade, de vê-lo. Moisés expressara-o na montanha sagrada: queria ver a face de Deus. Filipe repete o pedido a Jesus: mostra-nos o Pai e isto nos basta! Recebe, como resposta: “quem me vê, vê o Pai”. Deus se tornou visível entre nós por meio de seu Filho. Vale o provérbio: tal pai, tal filho. Jesus é a imagem do Pai, porque é seu filho. Chegamos ao ápice da história das religiões e ao cume da revelação divina, prenunciada o Antigo Testamento. (Por Dom Dadeus Grings)


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